CASAS-MUSEU EM PORTUGAL
O que é uma casa-museu? O que a caracteriza? Como se processa a sua compreensão e estudo? Que valências deve abranger? Qual o conteúdo destas unidades museológicas? Como foram instituídas e que implicações tem a sua criação? Como deve comportar-se a casa e o acervo perante os visitantes? Qual a sensação colhida por quem efectua uma visita a uma casa-museu? Estas e outras questões devem ser equacionadas, analisadas e compreendidas, no sentido de se evoluir no estudo da definição de casas-museu.
Muitos conceitos são apresentados: uns colocando a tónica no edifício; outros, no ambiente; aqueloutros nas colecções e ainda alguns na vivência de uma determinada pessoa ou grupo social. Provavelmente, ou certamente, perante as muitas ideias a apresentar, a simbiose entre múltiplos factores dará a resposta à necessidade de chegar a um conceito com o máximo de objectividade, assim como à definição das funções, importância e eficácia destes museus que começam a ser frequentes desde o século XIX, como nos refere Pedro Lorente, eventualmente substituindo os gabinetes de curiosidades, vindo nos últimos anos a ser questionados no que concerne à sua função e eficácia junto do público, face à transmissão de conhecimentos e à valorização das colecções e informações intrínsecas que possuem.
Todavia, antes de avançar para a definição daquilo que se nos afigura poder vir a considerar-se uma casa-museu, é fundamental reter a nossa atenção na expressão casa-museu, composta por duas palavras em justaposição, dois conceitos com dimensões completamente opostas quanto à sua abrangência, em relação à sua extensão pública e privada.
Estamos perante o conceito casa que tem um sentido privado, pessoal, de refúgio e intimidade, ao qual se junta o conceito museu com toda a sua carga e dimensão pública. Um museu é criado para receber pessoas, transmitir conhecimentos e interagir com o público, a que se associa a função de conservar, estudar e divulgar as colecções. No âmbito das casas-museu, a própria casa é, também, uma importante e imponente peça do museu a preservar e estudar.
Estando perante terminologias conceptualmente opostas, aumenta a complexidade desta abordagem, levantando um sem número de questões a quem trabalha nestas instituições. Assim, é igualmente importante, antes de avançar para o conceito de casa-museu, apresentar algumas definições daquilo que é uma casa e, paralelamente, o conceito de casa histórica. Na nossa perspectiva, estes não se reportam à mesma realidade. Uma casa-museu pode ser, simultaneamente, uma casa histórica, mas sendo histórica não significa que seja museu. Sem pretender atingir posições demasiado puristas, deve-se caminhar no sentido de estabelecer as diferenças entre todos os conceitos e assim clarificar a realidade. Considera-se que a casa histórica, “historic house”, está relacionada com o imóvel que apresenta histórias e leituras de um determinado local, de uma época definida ou estrato social, tal como se pode depreender da leitura de inúmeros textos.
A casa-museu deverá reflectir a vivência de determinada pessoa que, de alguma forma, se distinguiu dos seus contemporâneos, devendo este espaço preservar, o mais fielmente possível, a forma original da casa, os objectos e o ambiente em que o patrono viveu, ou no qual decorreu qualquer acontecimento de relevância, nacional, regional ou local, e que justificou a criação desta unidade museológica. Temos, nesta primeira definição, algumas condicionantes fundamentais, tais como a originalidade, residência do patrono e a função anterior da casa. Outras especificidades se nos apresentarão no decurso desta dissertação.
Ao reproduzir estes ambientes e, estando aberta como se de uma casa se tratasse, estas unidades museológicas vão musealizar o dia-a-dia destes espaços (PAVONNI 2001: 6). É este ambiente doméstico representando a maneira como alguém viveu, que reflectirá aspectos tão pessoais, como, por exemplo, a forma de se situar no mundo, transportando os visitantes para os tempos desse quotidiano que suscita interesse e curiosidade. Estas casas, verdadeiros teatros da memória, permitem o encontro com alguém, realizar visitas à casa desse escritor, daquele pintor, do Homem que se admira pela sua actividade política, da personalidade que se distinguiu numa determinada área da vida pública.
A proximidade com o espaço doméstico e privado é determinante na organização da Casa-Museu, assim como na motivação do público para a visitar. Ao chegar à casa-museu, o visitante deparar-se-á com o quotidiano da pessoa que dá nome à instituição, percebendo determinada maneira de pensar, de agir, inteirar-se-á do seu ambiente familiar, da sua época, da sua economia, da sua envolvência social e educativa. Todas estas variantes que formam a personalidade dos indivíduos estarão presentes no seu espaço habitacional e doméstico. Este será uma criação de autor, verdadeiro teatro da vida, de quem nessas casas habitou, e aí criou o seu cenário diário. Assim, quando se entra numa casa-museu, para além dos sistemas de vida doméstica, observando os objectos na sua forma original ou próxima dela, penetra-se directamente na intimidade de alguém, uma pessoa muitas vezes introvertida e que nunca pensou nesse espaço para ser fruído por estranhos. É esta intromissão, a vontade de olhar a forma como alguém ali viveu, que suscita o interesse de uma substancial parte do público. A memória pessoal, reflectida no espaço privado, transforma-se em memória colectiva, o espaço pessoal torna-se espaço público, procurado por quem pretender chegar ao íntimo de uma certa personalidade.
CASA DE JOSÉ RÉGIO DE VILA DO CONDE
A Casa de José Régio, aberta ao público a 17 de Setembro de 1975, dia em que se assinala o nascimento de José Régio, foi adquirida pela Câmara Municipal aos seus familiares, com dois objectivos prioritários: se por um lado era fundamental para Vila do Conde perpetuar a memória deste ilustre poeta, por outro, era também muito importante não destruir a unidade e harmonia da casa, colecção e personalidade.
Entre os objectivos principais da Casa de José Régio encontra-se a promoção do estudo da vida e obra do poeta. Para além de apoiar e disponibilizar os materiais a investigadores, a Câmara Municipal de Vila do Conde é sócia-fundadora e principal impulsionadora do Centro de Estudos Regianos, associação que se dedica ao estudo da vida e obra do poeta vilacondense.
Pretende-se, também, preservar, estudar e divulgar a colecção de obras de arte pertencentes ao acervo da casa. Destaca-se a valiosa colecção de arte popular que deverá ser conservada, estudada e posta à disposição do público que visita a Casa do poeta, uma vez que Régio foi um dos grandes coleccionadores do nosso país.
Depois dos objectivos gerais, definiram-se objectivos específicos que se inumeram a seguir:
- Perceber, através da sua obra, qual a importância de José Régio na âmbito da História da Literatura portuguesa;
- Realizar estudos da Colecção de Arte Contemporânea no âmbito da Arte Portuguesa do Século XX;
- Estudar a História da Família Reis Pereira – uma família de artistas vilacondenses;
- Promover, junto das comunidades locais, a figura de José Régio, um ilustre vilacondense, cujo valor deve ser reconhecido por todos;
- Percepcionar a religiosidade de Régio pela sua escrita e pelas suas colecções;
- Reconstituir o jardim da casa, um dos espaços mais apreciados por Régio;
- Promover colóquios, conferências e encontros sobre o poeta ou sobre outros poetas, a literatura portuguesa, a arte popular, temas relacionados com este espaço.
António Ponte
http://antonioponte.wordpress.com/
Fev.09